Introdução
Em Coteaux du Loir, num recanto da margem direita do Vale do Loire que o tempo parece ter poupado, Renaud Guettier cultiva vinhas de Chenin Blanc em solo de argila, sílex e calcário - e é delas que nasce o espumante Pink B.
A adega, escavada numa antiga pedreira de calcário, guarda o vinho por um ano sobre as próprias borras antes de ser dégorgé à mão, garrafa por garrafa.
Descrição da safra
A safra 2023 na região de Coteaux du Loir - e no Vale do Loire como um todo - foi marcada por condições climáticas contrastadas e exigentes.
O inverno úmido de 2022-2023 garantiu boas reservas hídricas, mas a primavera e o início do verão trouxeram calor e umidade persistentes, criando pressão intensa de doenças fúngicas - sobretudo míldio - que demandou trabalho constante nas vinhas durante toda a estação. Em julho, episódios de granizo atingiram partes da sub-região, agravando as perdas em algumas parcelas. Ao final de agosto, uma onda de calor acelerou a maturação; em seguida, chuvas de setembro voltaram a colocar a sanidade das uvas sob pressão.
Para os vignerons comprometidos com o trabalho manual e a seleção rigorosa dos cachos - como é o caso de Renaud Guettier -, o ano recompensou a dedicação com uvas equilibradas, de acidez viva e rendimento relativamente elevado para a região. Na taça, esse histórico climático se traduz num espumante de frescor pronunciado e linha ácida precisa, características típicas dos vinhos brancos do Loire em 2023.
Vinificação e Élevage
As uvas de Chenin Blanc utilizadas no Pink B. provêm das vinhas mais jovens do domaine e são colhidas à mão.
Após a colheita, a Chenin passa por prensagem direta, sem maceração, e o mosto inicia a fermentação espontânea, conduzida exclusivamente por leveduras indígenas, em cuba. Todo o trabalho de movimentação de mostos e vinhos é feito por gravidade, sem qualquer adição de insumos enológicos.
Logo antes do engarrafamento, uma pequena quantidade de Pineau d'Aunis proveniente da cuvée Adonis é incorporada ao vinho - é ela que confere ao espumante a leve cor rosada e o toque de especiaria. Já em garrafa, o vinho completa a refermentação e permanece sobre as borras finas por um ano inteiro antes de ser dégorgé à mão. O Pink B. não recebe adição de sulfitos em nenhuma etapa, nem passa por colagem ou filtração.
Nota de Degustação
De cor rosada pálida e borbulha fina e delicada, o Pink B. 2023 apresenta um nariz fresco, nítido, preciso e vibrante de frutos vermelhos (framboesa, groselha), mineralidade pronunciada e um toque discreto de especiaria - herança da Pineau d'Aunis incorporada antes do engarrafamento.
Na boca, o ataque é fresco e limpo, com acidez viva e estrutura mineral bem delineada, sustentada por bolhas tênues e persistentes. O final é esguio e preciso, com sabor de fruta vermelha crocante que se prolonga suavemente.
Harmonização
Servido bem fresco, entre 8 °C e 10 °C, em taça de bojo moderado que preserve as borbulhas, o Pink B. 2023 é um espumante versátil, construído para a mesa e para o aperitivo.
A acidez viva e as bolhas finas pedem petiscos salgados e crocantes - torradinhas com rillettes de porco ou uma tábua de charcutaria artesanal ficam perfeitos, já que a efervescência limpa o paladar a cada garfada. Frutos do mar leves, como ostras e camarões grelhados com ervas, ecoam a mineralidade pronunciada da Chenin. O toque de especiaria da Pineau d'Aunis convida a um queijo de cabra fresco, cujo leve ácido dialoga com a fruta vermelha crocante do vinho. Para a cozinha brasileira, uma casquinha de siri ou um ceviche de peixe branco são escolhas felizes.