Introdução
Em Santenay, no extremo sul da Côte de Beaune, existe um lieu-dit chamado Saint Martin - 19,8 hectares de solo argilo-calcário onde o Pinot Noir amadurece com exposição Sul. Pierre e Jennifer Clair cultivam ali uma parcela de 0,90 ha adquirida em 2020, trabalhada em biodynamia, colhida à mão e vinificada sem artifícios, por mãos que passaram quase duas décadas cuidando dos vinhedos de Montille e d'Angerville.
O nome do domaine joga com o sobrenome da família: clair obscur, claro-escuro, a tensão entre a luz e a sombra que define tanto a pintura quanto o próprio vinho - preciso e elegante, criado num pequeno projeto paralelo às grandes casas, mas fiel ao mesmo rigor que as tornou referência.
Descrição da safra
O ano de 2023 foi o mais quente já registrado na Borgonha, com temperaturas médias ligeiramente superiores às de 2022, embora o calor não tenha sido constante ao longo do ciclo.
O inverno ameno e seco deu lugar a uma primavera com risco de geada em abril, superado sem danos significativos. A floração ocorreu em condições favoráveis em junho, resultando em cachos abundantes. O verão foi marcado por alternância entre períodos úmidos e frescos - que elevaram a pressão de míldio - e ondas de calor em julho e agosto, com picos entre 35 e 36 graus Celsius durante a véraison.
Em Santenay, extremo sul da Côte de Beaune, a colheita começou por volta de 5 de setembro, um pouco mais tarde do que nas aldeias mais ao norte, dado o microclima ligeiramente mais fresco e úmido dessa extremidade da Côte. Uma segunda onda de calor, que se instalou no início de setembro e elevou rapidamente os teores de açúcar, exigiu triagem rigorosa das uvas.
A generosidade da colheita, somada à maturidade plena alcançada no final da temporada, conferiu ao Pinot Noir frutas maduras e de boa sanidade, preservando certo frescor graças às noites mais amenas do outono.
Vinificação e Élevage
A colheita é feita à mão por uma pequena equipe, com triagem manual realizada diretamente na vinha, e as uvas chegam à adega em caixas.
Os tintos do domaine são sempre vinificados em cachos inteiros, colocados intactos em cubas de madeira, permanecendo fechados por dois a três dias, período em que tem início uma maceração pelicular com tendência semicarbônica, voltada à extração de aromas. Em seguida, as cubas são abertas e a extração prossegue com pigeages realizados a pé por Pierre e Jennifer - de maneira extremamente delicada - alternados com raros remontages, modulados conforme o perfil da safra.
O tempo total de maceração raramente ultrapassa quinze dias e frequentemente fica abaixo de dez. Não há chaptalização, não há leveduras selecionadas: a fermentação conduzida por leveduras indígenas termina em barrica.
O élevage é feito em pièces bourguignonnes de 228 litros de carvalho francês, sempre usadas - com pelo menos cinco anos de uso -, provenientes dos domaines em que Pierre trabalhou ao longo de sua carreira. A duração do élevage varia conforme a cuvée e safra, situando-se geralmente entre nove e doze meses para os vinhos de perfil mais imediato.
Os vinhos não são filtrados nem colados. Pouco antes do engarrafamento, é adicionada uma dose mínima de enxofre de origem vulcânica - 0,5 grama por barrica de 228 litros -, podendo essa quantidade variar de acordo com a sanidade e a estabilidade do vinho. O SO2 total médio permanece entre zero e trinta miligramas por litro.
Nota de Degustação
Rubi de intensidade média, translúcido, com reflexos violáceos típicos do Pinot Noir jovem.
No nariz, o vinho se expressa com cereja silvestre e pitanga, acompanhadas por notas de especiarias suaves, folha seca e um fundo terroso discreto que remete ao solo argilo-calcário de Santenay. A vinificação em cachos inteiros confere ao conjunto certo frescor vegetal e uma dimensão quase floral.
Na boca, o ataque é delicado e preciso, com acidez viva que sustenta o desenvolvimento do vinho sem pesar. Os taninos são finos e bem integrados, a textura é fluida e mineral. O álcool contido - 12,47% - mantém o vinho no registro da leveza e da tensão. O final é saboroso, com boa persistência de fruta e um toque de especiaria.
Pronto para beber, mas comporta guarda de cinco a oito anos.
Harmonização
Com taninos finos, acidez viva e álcool contido (12,47%), este Bourgogne pede parceiros à mesa que não o sobreponham.
Frango assado ou galinha-d'angola ao forno - com ervas e um fio de manteiga - casam com a textura fluida e os aromas de cereja e especiaria suave do vinho. Cogumelos salteados ou um risoto de funghi exploram a afinidade natural entre o Pinot Noir e notas terrosas. Uma bisteca ou contrafilé grelhado ao ponto, sem molho muito pesado, dialoga bem com os taninos sedosos. Na cozinha brasileira, um frango caipira assado com alho, tomilho e manteiga funciona com elegância. Para o queijo, um brie ou reblochon são escolhas certeiras.
Sirva entre 14 e 16 °C, em taça Borgonha, sem necessidade de decantação.