Introdução
Cheilly-lès-Maranges fica no limite sul da Côte de Beaune, onde as encostas arrefecem e as uvas chegam à maturidade com mais calma do que em qualquer outro ponto da região. Foi ali, no lieu-dit Les Aubuzes, que Pierre e Jennifer Clair encontraram em 2015 uma parcela de argilo-calcário, plantada em 1985, que converteram de imediato à biodinâmica.
Em mãos como as de Pierre - formado durante décadas nos vinhedos dos Domaines de Montille e Marquis d'Angerville - esse solo fundo e fresco ganha expressão sem pressa: o Pinot Noir que nasce de Les Aubuzes é a voz menos conhecida, e talvez a mais honesta, da Côte de Beaune.
Descrição da safra
A safra de 2023 foi a mais quente já registrada na Borgonha, superando inclusive 2022.
O inverno ameno não acelerou o brotamento, que só ocorreu no final de março. A queda de temperatura no início de abril não ameaçou as brotações nascentes, mas os danos foram limitados. A primavera trouxe calor e chuvas regulares, favorecendo um florescimento excelente do Pinot Noir, com colheita farta à vista. O verão foi quente, porém menos extremo do que em 2003 ou 2018, intercalado por chuvas que mantiveram as videiras hidratadas. Uma onda de calor no início de setembro, com temperaturas chegando a 35 °C, acelerou a maturação e exigiu colheita rápida, feita nas primeiras horas da manhã para preservar a frescura das uvas.
Em Cheilly-lès-Maranges, os produtores relataram volumes excepcionalmente altos para o Pinot Noir, o que exigiu rigorosa seleção e, em muitos casos, uma colheita em verde para concentrar a qualidade. Les Aubuzes, com seus solos de argila pesada e temperaturas naturalmente mais frescas beneficiou-se do seu natural ritmo tardio, chegando à colheita com maturidade equilibrada.
O resultado é um vinho de 12,03% de álcool, que reflete a generosidade do ano sem perder o frescor que é marca do lieu-dit.
Vinificação e Élevage
A colheita em Les Aubuzes é inteiramente manual, com triagem rigorosa feita no próprio vinhedo. Os cachos chegam à adega inteiros e são transferidos diretamente para cubas de madeira, sem desengace.
Nos primeiros dois a três dias, as cubas permanecem fechadas, iniciando uma fermentação pelicular semi-carbônica que extrai aromas com delicadeza e preserva o frescor do fruto. Em seguida, as cubas são abertas e Jennifer Clair realiza pigeages de forma extremamente cuidadosa, alternados com raros remontages modulados segundo a safra. A cuvaison dura no máximo duas semanas e frequentemente fica abaixo de dez dias. Todo o processo ocorre com leveduras indígenas, sem adição de SO2 durante a fermentação e sem qualquer outra intervenção enológica.
Concluída a maceração, o vinho é prensado e transferido para pièces bourguignonnes de 228 litros, sempre usadas, com pelo menos cinco anos de uso, provenientes de domínios com os quais Pierre trabalhou ao longo da carreira. A fermentação alcoólica termina nessas barricas, seguida da fermentação malolática, que ocorre naturalmente.
O élevage se estende por cerca de doze meses em carvalho francês neutro. O vinho não passa por colagem nem filtração. Pouco antes do engarrafamento, é adicionada uma dose mínima de enxofre natural de origem vulcânica - 0,5 gramas por barrica - apenas quando a estabilidade do vinho assim o exige, mantendo o SO2 total dentro de um limite máximo de 30 mg/L.
Nota de Degustação
O vinho apresenta cor pálida, característica do Pinot Noir de vinificação em cacho inteiro em solos argilosos e frescos.
No nariz, abre-se com cerejas frescas, pitanga e notas florais persistentes, expressando a pureza aromática que distingue o lieu-dit Les Aubuzes.
A boca confirma o que o nariz anuncia: é franca, com fruta vibrante e arejada, de textura redonda e ligeiramente macia, sem peso excessivo.
O ataque é tranquilo, a acidez bem integrada e os taninos finos e sedosos enquadram o conjunto sem se impor. O álcool contido, em 12,03%, contribui para a sensação de frescor e bebibilidade. O final preserva os aromas florais e uma leve mineralidade que remete aos calcários subjacentes do terroir.
Segundo o importador Vine Trail, o vinho é "expressive on the nose, relaxed on the palate, with silky and fine tannins" - descrição coerente com a identidade do lieu-dit em safras de boa maturação como 2023.
Harmonização
Sirva entre 14 °C e 16 °C, em taça borgonha que permita a Pinot Noir abrir seus aromas florais e de fruta vermelha.
Os taninos sedosos e a acidez bem integrada pedem pratos de meio peso: coxa de pato confitada, frango assado com ervas finas e cogumelos silvestres são escolhas clássicas da cozinha borgonhesa. Aves de caça de baixo vôo, como perdiz ou codorna grelhada, harmonizam com a delicadeza de fruta do do vinho. Um risoto de funghi porcini, cremoso mas sem molhos pesados, valoriza a mineralidade do lieu-dit. Na cozinha brasileira, um frango caipira ao molho pardo, de acidez discreta e gordura contida, dialoga bem com a estrutura leve e o frescor do vinho. Queijos de pasta mole como brie ou camembert funcionam como alternativa elegante ao final da refeição.