Introdução
Ao pé das encostas de Pommard, o vinhedo Les Sorbins é cultivado com Pinot Noir em manejo orgânico há mais de dez anos, com baixa produção e uvas cheias de concentração. A parcela fica levemente fora dos limites da appellation de Pommard, o que faz com que o vinho leve a classificação Bourgogne Rouge e o nome bem-humorado Homard Bleu ('lagosta azul' em francês). O nome da cuvée é um jogo de palavras com Pommard: a ideia de algo que está tão perto de ser outra coisa, mas não é. Paul Perarnau e Willy Roulendes encontraram nesse detalhe de fronteira o espaço exato para fazer um vinho delicioso, que fala do lugar sem precisar do rótulo que o lugar confere.
Descrição da safra
A safra 2023 foi, para a Borgonha, o ano mais quente já registrado em termos de temperatura média anual, mas seu caráter não se resumiu ao calor: invernos amenos, primavera com chuvas regulares e floração homogênea deram ao ciclo um arranque generoso, com potencial de colheita elevado. Na Côte de Beaune, onde fica o vinhedo Les Sorbins, as precipitações de agosto ficaram abaixo das registradas na Côte de Nuits, o que favoreceu a sanidade das uvas. Uma onda de calor intenso entre o final de agosto e o início de setembro acelerou a maturação e empurrou os graus alcoólicos para cima de forma rápida, exigindo decisão precisa sobre o momento da colheita. O vinhedo Les Sorbins, localizado em Pommard, cultivado em manejo orgânico há mais de dez anos com rendimentos naturalmente contidos, entregou uvas pequenas e concentradas. O resultado é um 2023 de maturidade generosa, onde a exigência do terroir e a gestão rigorosa do vinhedo foram decisivas para preservar o equilíbrio.
Vinificação e Élevage
Uvas colhidas à mão chegaram à adega em cachos inteiros. A fermentação ocorreu em cubas de aço inoxidável, com leveduras indígenas e sem controle de temperatura - princípio que Domaine AMI aplica a todos os seus tintos. Nos primeiros dias, a massa fermentou sem intervenção, o que favoreceu uma leve maceração carbônica natural; em seguida, foram realizados pigeage e remontagem suaves. A maceração total se estendeu por cerca de 10 a 15 dias.
Concluída a fermentação, o vinho passou 12 meses em barricas usadas, com idade entre três e oito anos, sem qualquer carvalho novo. Não houve trasfegas nem bâtonnage durante esse período. O vinho permaneceu sobre as borras, preservando textura e expressão varietal. Fiel à filosofia do domaine, o Homard Bleu não passou por colagem nem filtração e recebeu apenas uma dose mínima de SO2 - inferior a 25 mg/l - no momento do engarrafamento.
Nota de Degustação
O Homard Bleu 2023 apresenta cor rubi de intensidade média, com reflexos violáceos. No nariz, abre com notas de cereja vermelha temperada e violeta, acompanhadas por um fundo floral fresco e uma mineralidade discreta. Em boca, o ataque é suculento e vivo, com fruta pura e textura macia que refletem o élevage sobre as borras em barrica usada. A acidez é bem integrada, os taninos são delicados e o conjunto tem um frescor que equilibra um 2023 generoso e quente. O final é persistente e floral.
Harmonização
O Homard Bleu pede companhia à mesa. Sua acidez viva, seus taninos delicados e a fruta de cereja vermelha pedem pratos de intensidade média, sem molhos muito pesados. Um magret de pato ao molho de frutas vermelhas é parceiro clássico: a gordura da carne e a acidez do molho dialogam com a suculência do vinho. Cogumelos salteados na manteiga, como portobello ou porcini, realçam a mineralidade discreta do terroir argiloc-alcário. Um frango caipira assado com ervas finas, sugestão da cozinha brasileira, funciona muito bem pela maciez da carne e pelos aromas herbais que ecoam o frescor floral do vinho. Queijos de casca lavada de intensidade moderada, como um comté jovem, são outra boa pedida. Sirva entre 15 °C e 17 °C, em taça borgonha de bojo amplo.