Introdução
No coração dos Coteaux du Loir, em Dissay-sous-Courcillon, há videiras de Pineau d’Aunis plantadas em 1904. Mais de um século de raízes fincadas em argila de sílex sobre calcário, atravessando tudo o que o tempo impõe. É dessas cepas centenárias que nasce L’Enchanteresse.
O nome - “A Encantadora” - não parece acidental. A Pineau d’Aunis é uma das castas mais antigas do Vale do Loire e nas mãos de Renaud revela um tinto de profundidade encantadora, que só vinha centenárias podem oferecer.
Descrição da safra
A safra de 2022 nos Coteaux do Loire foi marcada por um verão excepcionalmente quente e seco - julho registrou os menores índices de precipitação desde o início das medições oficiais em 1959. No Vale do Loire como um todo, a seca penalizou os volumes, enquanto os calores extremos exigiram atenção redobrada à condução das vinhas. Geadas pontuais na primavera e episódios de granizo em algumas sub-regiões também contribuíram para a heterogeneidade das colheitas.
A chuva que chegou no final de agosto e início de setembro foi decisiva: permitiu que as videiras retomassem o ciclo vegetativo e que os cachos alcançassem maturidade plena com excelente estado sanitário. As colheitas foram precoces, realizadas com seleção rigorosa.
No Loire, o resultado foi um ano ao mesmo tempo solar e fresco, com tintos de fruta concentrada, taninos maduros e boa tensão - características especialmente favoráveis à Pineau d'Aunis, que brilha justamente quando colhida em plena maturidade.
Vinificação e Élevage
A colheita das uvas centenárias de Pineau d'Aunis é sempre inteiramente manual, seguida de seleção rigorosa dos cachos.
As uvas - metade desengaçada, metade em cachos inteiros - são depositadas em cuves tronconiques de carvalho, onde passam por uma maceração de quatro semanas com pigeage aos pés. A fermentação ocorre de forma espontânea, conduzida exclusivamente por leveduras indígenas, sem qualquer aditivo enológico. Mostos e vinhos se deslocam apenas por gravidade em todas as etapas do processo, preservando a integridade da matéria-prima.
Concluída a fermentação, o vinho segue para o élevage em demi-muids de carvalho de 600 litros, instalados nas caves escavadas no próprio tuffeau - a pedra calcária que constitui o subsolo da região. Ali permanece sobre as borras, sem soutirage nem bâtonnage, por 12 meses. Esse repouso lento e sem intervenção, em ambiente de temperatura e umidade naturalmente estáveis, é o que permite ao vinho estabilizar-se sem qualquer adição, consolidando estrutura e profundidade.
O engarrafamento é feito por gravidade, sem colagem, sem filtração e sem adição de sulfitos, mantendo coerência absoluta com a filosofia não intervencionista que orienta todo o trabalho de Renaud Guettier.
Nota de Degustação
A cor é vermelha de intensidade média, com reflexos que sugerem a leveza característica da Pineau d'Aunis.
No nariz, abre-se com grande intensidade: frutas vermelhas e negras maduras - morango, cereja, amora, mirtilo - pontuadas por pimenta preta e especiarias. Um vinho de precisão aromática inconfundível.
Na boca, o ataque é volumoso e aveludado, com taninos presentes mas bem integrados pela maceração longa e pelo élevage prolongado. A fruta permanece generosa e encorpada, sustentada por acidez fresca e por uma textura sedosa que confere um longo final meditativo. Um vinho de finesse irrertocável.
Potencial de guarda: de 10 a 15 anos.
Harmonização
Sirva L'Enchanteresse entre 16 e 18 °C, em taça de tinto de abertura média que concentre as especiarias e deixe a fruta se expressar. Dado o potencial de guarda, uma decantação de 30 a 45 minutos valoriza vinhas de 2022 ainda em evolução.
O caráter aveludado e a pimenta da Pineau d'Aunis pedem pratos de estrutura sem excesso de gordura: um cordeiro rôti com ervas da Provence, cujos sucos rosados ecoam a fruta madura do vinho, é uma escolha clássica e certeira. Pratos cozidos lentamente de carne vermelha, como ensopado de carne bovina, boeuf bourguignon ou um ossobuco sem molho muito pesado, aproveitam os taninos bem integrados e a longa persistência. Charcutarias finas como um presunto cru de cura longa ou bresaola dialogam com a acidez fresca e o lado especiado. Na cozinha brasileira, um pernil assado lentamente com alho e ervas forma uma combinação natural com a fruta concentrada e a pimenta da uva. Para encerrar, queijos de meia-cura como comté ou um bom queijo minas artesanal da serra afinam com a textura sedosa e a acidez equilibrada do vinho.