Introdução
Em Comblanchien, ao sul da Côte de Nuits (entre Nuits-Saint-Georges e Premeaux-Prissey), o calcário que sustenta o solo é o mesmo que durante séculos foi extraído em blocos e polido para revestir palácios e metrôs ao redor do mundo. Sobre essa pedra antiga, videiras de 80 a 90 anos de idade fincan raízes fundo, e é delas que Oronce de Beler, à frente da La Maison Romane, extrai o pinot noir que dá origem a esta cuvée.
Fermentado com cachos inteiros, o Cote de Nuits Villages Rouge carrega a marca de mãos que confiam no que a terra já sabe fazer.
Descrição da safra
A safra 2023 foi a mais quente já registrada na Borgonha, embora esse calor tenha chegado de forma irregular ao longo do ciclo. O inverno foi ameno e relativamente seco, e o brotamento ocorreu por volta de 10 de abril, sem danos expressivos de geada. A primavera trouxe chuvas e pressão elevada de míldio, mas o florescimento deu-se rapidamente, em junho quente e seco, resultando numa carga de frutos excepcionalmente generosa. Julho e a primeira metade de agosto foram instáveis, com chuvas frequentes e alguns eventos de granizo localizados. A Côte de Nuits recebeu quase o dobro de chuva em relação à Côte de Beaune nesse período, o que aumentou o risco de podridão e exigiu seleção rigorosa na mesa de triagem. O calor voltou com intensidade a partir de meados de agosto e se estendeu pelas primeiras semanas de setembro, acelerando bruscamente a maturação.
As colheitas concentraram-se entre o início e meados de setembro, muitas vezes realizadas nas primeiras horas da manhã para preservar a integridade das uvas.
Os rendimentos na Côte de Nuits foram significativamente superiores à média dos cinco anos anteriores, e o controle do volume foi decisivo para a qualidade final. Para as videiras de Comblanchien, a combinação de solos argilo-calcários bem drenados e a seleção criteriosa resultou em uvas sãs e maduras, com caráter frutal expressivo e taninos bem formados.
Vinificação e Élevage
A colheita é integralmente manual, com dupla seleção - primeiro no vinhedo, cacho a cacho, e depois na mesa de triagem na adega. Somente após essa triagem rigorosa os cachos chegam à cuba sem desengace.
Oronce de Beler trabalha com 100% de cachos inteiros (vendange entière), condição que considera inegociável para preservar o caráter do terroir e conferir especiaria e estrutura ao vinho sem pesar nos taninos. A fermentação alcoólica ocorre com leveduras indígenas, durante aproximadamente três semanas, sem adição de sulfitos ou com doses homeopáticas - tão baixas que Oronce as descreve como simbólicas.
Durante a maceração, as remontagens são raras e muito suaves, para preservar a integridade das bagas. Somente ao final, quando o mosto está prestes a concluir a fermentação, realiza-se uma única pigeage para romper os cachos ainda intactos: ao liberar o açúcar residual, esse gesto prolonga o processo fermentativo e, ao mesmo tempo, limita a extração de taninos, mantendo o vinho fluido.
A fermentação malolática tem início de forma espontânea, muitas vezes ainda sob a prensa, favorecida pela ausência de sulfitos.
O élevage dura 12 meses em barricas de carvalho francês usadas, provenientes da floresta de Tronçais, de 225 litros. O uso exclusivo de barricas velhas preserva o fruto e impede que a madeira domine o vinho. As trasfegas são feitas estritamente por gravidade, sem bomba. O vinho não é colado nem filtrado.
O engarrafamento é manual, com enchedora de gravidade de quatro bicos, respeitando os ciclos lunares, e as garrafas são seladas com cera.
Nota de Degustação
O vinho apresenta cor vermelho-rubi brilhante, de intensidade média. No nariz, revela um buquê expressivo e perfumado, com aromas de framboesa e groselha fresca, acompanhados de notas florais e sutis toques de especiarias provenientes da fermentação com cachos inteiros.
Segundo o site especializado The Grape Reset, o Côte de Nuits Villages da La Maison Romane é generoso e aromático, rico e suave ao mesmo tempo, com uma sensação sedosa marcante - resultado da concentração e profundidade que as videiras de 80 a 90 anos emprestam ao vinho.
Em boca, o ataque é picante, frutado e envolvente, com textura aveludada e acidez vibrante que sustenta o conjunto. Os taninos são finos e bem integrados. O corpo é médio, o álcool contido (11,97%) confere leveza e facilidade de beber sem perder interesse. O final é longo e mineral, com persistência que remete ao calcário de Comblanchien.
O site iDealwine descreve a versão 2023 como um vinho de intensidade leve, de caráter essencialmente frutado, onde a frescura e as notas minerais se integram perfeitamente numa textura aveludada.
Pode ser apreciado jovem, mas sua estrutura permite evolução de alguns anos em adega.
Harmonização
Sirva entre 14 °C e 16 °C, em taça borgonha de bojo amplo, que concentra os aromas delicados do pinot noir. Uma breve decantação de 20 a 30 minutos ajuda a abrir o vinho e a integrar os taninos finos.
Prato de frango caipira assado com ervas - a acidez vibrante e a textura sedosa do vinho sustentam a carne sem encobri-la. Cogumelos salteados com alho e tomilho - as notas terrosas e especiadas da fermentação com cachos inteiros encontram cumplicidade natural nas notas umami dos fungos. Terrine de campanha ou charcutaria artesanal - a fruta fresca e o álcool contido equilibram a gordura curada. Queijos de casca lavada de sabor pronunciado, como époisses - a acidez corta a riqueza e a fruta vermelha contrasta a pungência. Na cozinha brasileira, um frango ao molho pardo, com seu caldo levemente ácido e especiado, dialoga muito bem com o caráter frutado e a mineralidade deste pinot noir.