Introdução
No eixo do cone aluvial formado pela Combe de Lavaux, a leste de Gevrey-Chambertin, La Justice é um climat antigo, cujos fragmentos calcários, acumulados ao longo de milênios, favorecem a drenagem do solo.
Foi nesse pedaço preciso da Côte de Nuits que Oronce de Beler - chegado à Borgonha em 2004, sem vinha nem herança - encontrou uvas cultivadas sem herbicidas nem pesticidas.
La Justice ocupa um lugar especial na La Maison Romane: é seu grande tesouro, a cuvée que concentra o sentido do trabalho de Oronce. Nela, sua sensibilidade como vinicultor encontra uma matéria-prima que ele procura trabalhar com o mínimo de intervenção, preservando a expressão do lugar e de cada safra. Mais do que um vinho emblemático, é a tradução de uma convicção: o que chega à taça começa no solo, passa pelo clima de cada ano e depende do cuidado de quem trabalha incansavelmente a terra, sem atalhos químicos.
Descrição da safra
O ciclo de 2022 na Borgonha foi marcado por calor e secura excepcionais (o ano mais seco e ensolarado do século na região), mas também por um episódio de chuva providencial.
Após um inverno relativamente seco e ameno, a primavera avançou com rapidez: a floração ocorreu em meados de maio, com cerca de duas semanas de antecedência em relação à média histórica. Em junho, uma série de aguaceiros intensos, concentrados sobretudo na segunda metade do mês, recarregou as reservas hídricas dos solos - em Gevrey-Chambertin, uma tempestade violenta despejou aproximadamente 100 mm em poucos minutos, chegando a inundar ruas e adegas da aldeia. Esse estoque de água foi essencial para sustentar as videiras durante o julho seco e quente que se seguiu. Em agosto, com temperaturas acima da média mas sem as ondas de calor extremas de 2003, as uvas completaram a maturação em condições sanitárias excelentes.
Na Côte de Nuits, a colheita ocorreu no final de agosto e início de setembro, com frutos saudáveis e bem concentrados. Os rendimentos, saudáveis após a safra mínima de 2021, favoreceram a qualidade. O resultado, para a região, foram vinhos de fruta madura e expressiva, com frescor surpreendente para um ano tão quente e teores alcoólicos moderados - características que se refletem no 11,7% AbV desta cuvée.
Vinificação e Élevage
A colheita das uvas de La Justice ocorreu em 31 de agosto de 2022, num dia "raiz" segundo o calendário lunar que orienta o trabalho de Oronce de Beler.
No vinhedo e na mesa de triagem da cave, cada cacho passa por seleção minuciosa antes de ser encubado. A partir daí, a intervenção é deliberadamente mínima: sem leveduras selecionadas nem enzimas, os cachos inteiros, sem desengace, são introduzidos na cuba por gravidade.
Segue-se uma maceração pré-fermentativa a frio, a 12-15 °C, durante cinco dias, antes que a fermentação espontânea propriamente dita se instale. A duração total da cuvaison chega a 17 dias. Durante esse período, realizam-se dois pigeages concentrados na fase terminal da fermentação - momento em que Oronce pressiona as uvas para liberar açúcares residuais e manter a atividade fermentativa - além de uma remontagem leve diária até ao fim da extração. A ausência de sulfitos adicionados nessa etapa favorece o início precoce da fermentação malolática, que frequentemente começa ainda sob o pressoir ou antes mesmo da prensagem. A prensagem é feita em prensa vertical.
O élevage tem duração total de 16 meses: 15 meses em barrica de carvalho francês e 1 mês em cuba de inox. As barricas, de chauffe douce e lenta, não são novas - a parcela de madeira nova representa 20% do conjunto. Não há bombas em nenhuma etapa: todos as trasfegas são realizadas por gravidade e o engarrafamento utiliza um sistema de enchimento de quatro bicos também por gravidade.
Oronce adota ainda uma frequência deliberadamente baixa de ouillage - a cada dois meses, em vez de semanalmente -, prática que, segundo ele, reduz a entrada de oxigênio e a acidez volátil. O vinho não recebe colagem. O engarrafamento manual, realizado num dia de fruto segundo o calendário lunar, sela cada garrafa com cera.
A produção foi limitada a um pequeno número de barricas, resultando em volume reduzido.
Nota de Degustação
La Justice em 2022 está absolutamente irresistível! A típica pureza de fruta da cuvée com exuberância aromática, volume de boca, suculência, frescor, com ligeira estrutura tânica. Um vinho de qualidade superior, que se resume em uma palavra: ambicioso. Parabéns a Oronce de Beler.
Harmonização
Sirva entre 15 e 17 °C, em taça borgonha de bojo amplo, que libera os aromas finos do Pinot Noir. Uma breve decantação de 20 a 30 minutos pode abrir ainda mais o vinho.
A fruta madura, a acidez vibrante e os taninos sedosos pedem acompanhamentos de textura delicada e sabores que não se sobreponham: aves assadas, como frango caipira ao molho de ervas ou galinha-d'angola, são parceiros clássicos. Cogumelos silvestres - em risoto de porcini ou em molho reduzido - ecoam as notas terrosas do climat. Carnes vermelhas magras e malpassadas, como um medalhão de filé, casam com a estrutura do vinho sem disputar o protagonismo. Queijos de meia-cura, como um Époisses ou um Comté bem afinado, criam equilíbrio com a tensão frutal. Na cozinha brasileira, um frango caipira ao vinho tinto, com cogumelos e ervas finas, dialoga com o estilo borgonhês com naturalidade.