Introdução
No sopé da Floresta Negra, onde as colinas do Markgräflerland guardam solos de argila e calcário, Alex Götze e Christoph Wolber escolheram o vinhedo Ehrenstetter Ölberg para fazer um dos seus melhores Spätburgunder.
O Möhlin nasce de parcelas antigas nessa encosta de exposição sudeste em Ehrenstetten, trabalhadas inteiramente à mão por dois enólogos formados na Borgonha que voltaram à Alemanha com uma convicção simples: Baden, sobre o calcário certo, tem algo próprio a dizer.
Descrição da safra
Em Baden, 2022 foi um ano de calor e seca persistentes, com o verão mais ensolarado desde o início dos registros históricos. As temperaturas elevadas aceleraram a maturação das uvas ao longo dos meses de julho e agosto, e o estresse hídrico foi uma preocupação real, sobretudo em vinhedos jovens ou instalados sobre solos leves. No Ehrenstetter Ölberg, as videiras antigas e raízes profundas do Möhlin foram capazes de atravessar a estiagem sem maiores danos, beneficiando-se ainda do manejo biológico que favorece a formação de húmus e a retenção de água no solo.
Em Baden, as chuvas chegaram ainda em agosto, antes da colheita, ao contrário do que ocorreu em outras regiões alemãs, onde a chuva de setembro interrompeu a vindima. Isso permitiu que os cachos completassem a maturação com saúde e equilíbrio, sem que os graus alcoólicos se elevassem em excesso.
O ano foi descrito pelas associações vitivinícolas da região como especialmente favorável para as uvas da família Pinot, com graus Oechsle entre 85 e 95 e aromas varietais expressivos. Para o Spätburgunder, 2022 é considerado por especialistas um dos maiores anos da história recente da Alemanha, próximo ou superior ao aclamado 2018 - o que se reflete na intensidade e na finesse do Möhlin.
Vinificação e Élevage
A colheita é inteiramente manual, como exige o declive acentuado e o terraçamento das parcelas do Möhlin.
No lagar, a vinificação do Spätburgunder 2022 começa com maceração carbônica com 70% de cachos inteiros em um botti aberto de madeira antiga, seguida de remontagens brandas para garantir uma fermentação saudável desde o início. A extração é deliberadamente suave: os remontages são poucos, e o movimento do chapéu se faz, em grande parte, à mão. A fermentação ocorre com leveduras indígenas, sem qualquer inoculação. O sulfito só é adicionado após a fermentação malolática, estratégia que, segundo Alex Götze e Christoph Wolber, favorece a integração dos taninos e preserva a expressão do terroir, sobretudo em vinificações com alta proporção de engaço.
Após a fermentação, o vinho passa a um élevage de 16 meses em barricas francesas de uso anterior (essencialmente pièces e tonneaux borgonheses), que cedem ao vinho uma influência mínima de madeira e o deixam desenvolver-se com liberdade sobre suas borras finas. O vinho é engarrafado sem colagem e sem filtração, com adição de sulfitos em quantidade muito reduzida, apenas às vésperas do envase.
Nota de Degustação
O Möhlin 2022 apresenta bouquet profundo e rico, com aromas frescos e apimentados de pitanga e cereja. Segundo o Wine Advocate, o nariz é intenso, elegante e refinado.
Em boca, é um Pinot Noir sedoso, fresco e denso, mas ao mesmo tempo suculento. O ataque revela uma leve adstringência inicial, que se dissolve com o tempo na taça ou após aeração. A textura é aveludada e o final, carnoso e persistente.
Os críticos o descrevem, em especial a Wine Advocate , como um vinho exuberante, intenso e tenso, potente e elegante, com estrutura firme e prolongada.
O Möhlin é o vinho mais encorpado e muscular da casa, dotado de profundidade e transparência notáveis. A safra 2022 pede ainda algum tempo de guarda para revelar toda a sua complexidade.
Harmonização
Sirva em taça borgonha ampla, entre 16 °C e 17 °C. Se a garrafa for jovem, decante por ao menos 30 minutos para abrir os aromas e suavizar os taninos.
O Möhlin 2022 pede pratos de certa substância: lombo, pernil ou costela suína assados realçam a profundidade de fruta e a veia apimentada do vinho; pato confitado ou magret, com sua gordura rica, equilibra a firmeza dos taninos e ressoa com os tons de cereja e pitanga do Spätburgunder. Cogumelos salteados em manteiga - especialmente portobello ou porcini - dialogam com a camada terrosa e a mineralidade calcária do Ölberg. Na cozinha brasileira, filé mignon ou contrafilé bovino fazem uma combinação de efeito notável.