Introdução
No alto do Castellberg, colina que guarda ruínas de uma ocupação medieval e rastros de civilizações ainda mais antigas, os solos calcários e de marga constroem um diálogo silencioso com as vinhas de Pinot Noir de Martin Waßmer.
A encosta voltada para o sudoeste, em Ballrechten-Dottingen, no sul de Baden, conta com terraços erguidos em pedra seca desde 1784, listados como patrimônio histórico, onde cada degrau esculpido na rocha é também parte da identidade do vinho.
Desde 2009, este vinhedo assina a cuvée GC do produtor - a mais alta da pirâmide de Markgräflerland - um Pinot Noir feito com rendimentos entre 20 e 25 hectolitros por hectare, colheita manual e fermentação espontânea, amadurecido em barricas das melhores tanoarias da Borgonha.
Descrição da safra
O ano de 2021 foi, para o Markgräflerland e para toda a Baden, um dos mais exigentes das últimas décadas.
Geadas tardias na Páscoa causaram danos severos nos brotos jovens, com perdas que chegaram a 80% em alguns vinhedos da região. A primavera fria atrasou o desenvolvimento vegetativo em até duas semanas em relação à média histórica, e as chuvas persistentes de junho e julho intensificaram a pressão do míldio, exigindo trabalho redobrado nos vinhedos. O verão foi mais ameno e úmido do que o habitual, sem as ondas de calor que marcaram os anos anteriores. Setembro trouxe a virada: sol abundante e noites frescas aceleraram a maturação e garantiram colheita saudável, porém muito reduzida - estima-se que Baden produziu cerca de 20% menos que a média da década.
Para o Dottinger Castellberg, os rendimentos já naturalmente baixos foram ainda mais contidos pelas perdas de primavera, reforçando a concentração e a tensão que definem este vinho no ano.
Vinificação e Élevage
As uvas de Pinot Noir do Dottinger Castellberg são colhidas à mão e selecionadas ainda no vinhedo, chegando à adega em condições rigorosas de qualidade.
Na adega, os cachos passam por fermentação espontânea - conduzida exclusivamente por leveduras indígenas, sem adição de leveduras selecionadas - em dornas abertas de madeira, método que remete diretamente à tradição das grandes casas da Borgonha. A maceração é lenta e prolongada, favorecendo a extração gradual de estrutura e matéria corante sem brutalidade.
Após a fermentação, o vinho é transferido para barricas produzidas pelas melhores tanoarias da Borgonha - entre elas Rousseau, François Frères e Taransaud -, onde permanece por até 18 meses. O élevage em barrica confere profundidade e estrutura ao vinho sem sufocar a expressão do terroir calcário do Castellberg.
Este processo longo e cuidadoso, reservado exclusivamente aos vinhos GC do produtor, é o que permite ao Dottinger Castellberg Pinot Noir desenvolver o caráter complexo, a tensão e a longevidade que definem esta cuvée.
Nota de Degustação
A pitanga ressurge com força neste 2021, evocando a grandiosidade do Castellberg 2018. Notas de cereja se entrelaçam a uma sutil mineralidade, um leve toque floral e delicadas especiarias. Na boca, revela volume e elegância, com a textura dos grandes vinhos. A acidez impecável conduz a um final longo e memorável.
Harmonização
Sirva entre 16 e 18 °C, em taça Borgonha, que permita a expressão aromática do vinho.
Com taninos finos, acidez viva e um caráter mineral marcante, o Dottinger Castellberg GC 2021 pede pratos de igual elegância: filé de boi grelhado ao ponto, cuja gordura macia acolhe a estrutura do vinho; pato braseado com especiarias ou cordeiro assado lentamente com ervas, clássicos parceiros de Pinot Noir de terroir calcário. Para a cozinha brasileira, um pernil de leitão assado com farofa delicada faz uma combinação expressiva, sem sufocar a finesse do vinho. Um queijo de pasta mole de casca lavada, como brie ou camembert bem curado, também harmoniza com a textura cremosa e a mineralidade salina do Castellberg.