Introdução
Paul Perarnau e Willy Roulendes se conheceram trabalhando em num vinhedo da Côte de Beaune e, em vez de seguirem caminhos separados, fundaram juntos o Domaine AMI. O Aligoté que cultivam desde 2017 em Chassey-le-Camp - parcela de 45 anos a apenas cinco quilômetros de Bouzeron, em solos de argila e areia - carrega uma origem honesta: uvas orgânicas, adega sem pressa, sem carvalho novo, sem filtração. É a casta que a Borgonha por vezes deixa à sombra da Chardonnay, tratada aqui com o mesmo cuidado reservado aos grandes nomes da Côte-d'Or.
Descrição da safra
A safra 2023 na Borgonha foi marcada por um inverno suave, com temperaturas acima da média em janeiro e fevereiro, seguido de um despertar vegetativo ligeiramente tardio - as primeiras brotações surgiram apenas no início de abril, após um retorno do frio em março. A primavera foi instável, alternando fases frescas e períodos mais quentes, mas a floração ocorreu em condições favoráveis, com boa sanidade e saída generosa de cachos. O verão trouxe calor intenso e episódios de granizo em julho - com registros de danos nas zonas de Mercurey e Bouzeron, na Côte Chalonnaise, próxima a Chassey-le-Camp. Agosto encerrou com pico de calor acentuado, temperado por noites mais frescas no final do mês, o que ajudou a equilibrar a maturação antes da colheita, iniciada na região em 10 de setembro. No geral, C produziu volumes acima da média decenal, com uvas de boa sanidade e acidez preservada - características que, no Aligoté de Chassey-le-Camp, se traduzem no perfil fresco e de boa tensão que a casta pode oferecer.
Vinificação e Élevage
As uvas da parcela de Chassey-le-Camp são colhidas à mão e passam por prensagem direta, em cachos inteiros, sem desengace prévio. O mosto resultante é dividido em duas partes: metade segue para barricas usadas, com seis a oito anos de uso, onde fermenta com leveduras indígenas e sem controle de temperatura; a outra metade é vinificada em inox, igualmente por fermentação espontânea. Não há adição de leveduras selecionadas nem intervenção de temperatura ao longo do processo.
O élevage tem duração de dez meses, mantendo cada lote no mesmo recipiente em que fermentou. A metade maturada em barrica permanece sem qualquer trasfega nem bâtonnage em pelo menos 50% do volume, preservando intacta a relação entre o vinho e suas borras finas. Ao final, o vinho é engarrafado sem clarificação e sem filtração, recebendo apenas uma dosagem mínima de SO2 - entre 10 e 30 ppm - imediatamente antes do engarrafamento.
Nota de Degustação
Nariz com predominância de limão, maçã verde, com uma ligeira nota de pêssego e um perfume de flor branca. Na boca, cítrico, pedra molhada e um leve amargor, extremamente sútil, que encanta.
Volume de boca com belíssima acidez e persistência. Extremamente gastronômico.
Harmonização
Sirva a 12 °C, em taça de boca estreita que concentre o perfume cítrico e floral da casta. A acidez viva e o leve amargor pedem frutos do mar - ostras e mariscos funcionam muito bem, pois a vivacidade do vinho corta a salinidade iodada. Peixes grelhados ou à meunière ganham contraponto refrescante. Queijos de cabra jovens estabelecem um eco perfeito de acidez com acidez. Na cozinha brasileira, a peixada cearense leve, com tucupi ou limão, encontra boa parceria nessa tensão cítrica. Gougères ou torradinhas com patê de campagne completam o trio apéritif clássico da Borgonha.