Introdução
Acima da Côte d'Or, nas colinas tranquilas de Mavilly-Mandelot, Morgane Seuillot e Christian Knott constroem, parcela a parcela, uma leitura própria das Hautes-Côtes de Beaune. Ela, borgonhesa de raiz; ele, australiano que cruzou o mundo para chegar até a principal região vitivinícola do mundo. O Hautes-Côtes Nature é a cuvée que colocou o Domaine Dandelion no mapa: Pinot Noir puro, colhido e elaborado com trabalho inteiramente manual, nos seus menos de quatro hectares de vinhedos tratados como jardins vivos, lavrados a cavalo e sem qualquer adição de herbicidas e pesticidas. Longe das appellations mais célebres, é aqui, nessas encostas mais silenciosas e frescas, que este vinho encontra sua razão de ser.
Descrição da safra
O ciclo de 2024 foi, na região da Borgonha, um dos mais exigentes da memória recente. Após um inverno muito úmido e temperaturas excepcionalmente amenas em fevereiro e março (que aceleraram a brotação em cerca de dez dias), a primavera trouxe geadas em meados de abril, seguidas de chuvas quase ininterruptas em maio e junho, com pressão severa de míldio ao longo de toda a temporada. Para os produtores orgânicos, como o Domaine Dandelion, o desafio foi ainda maior: sem recursos a fungicidas de síntese, o trabalho nas vinhas precisou ser constante e minucioso para preservar a sanidade dos cachos.
O agosto quente e ensolarado foi decisivo: permitiu que as uvas que sobreviveram ao ciclo atingissem maturidade plena antes da colheita, iniciada em torno de 12 de setembro na Côte de Beaune. Os rendimentos regionais foram expressivamente reduzidos - o Pinot Noir da Côte de Beaune acusou perdas de até 50% em relação à média -, mas as uvas colhidas chegaram à adega maduras e com graus alcoólicos mais contidos que nos anos anteriores. O distribuidor mesbourgognesbeaune.com descreve a safra 2024 do Hautes-Côtes Nature como feita com "belos cachos colhidos na maturidade", o que aponta para um ano escasso, porém criterioso em seleção - e com as marcas de frescor e precisão que a região expressou neste ciclo.
Vinificação e Élevage
A colheita do Hautes-Côtes Nature é inteiramente manual, condição indispensável para que os cachos cheguem à adega intactos. As uvas são transferidas em cachos inteiros - sem desengace - para cubas de concreto, onde se inicia uma maceração semi-carbônica parcial: durante os primeiros dez dias ao menos, os cachos repousam sem qualquer intervenção, sem pigeage nem remontagem, enquanto as bagas inteiras no fundo da cuba fermentam em atmosfera de CO2 gerada naturalmente. A maceração total dura cerca de vinte dias.
Próximo ao fim desse período, a massa é levemente foulée à pied - pisada com os pés - para liberar os açúcares residuais de forma gradual e evitar um pico brusco de temperatura na prensagem. A fermentação é espontânea, conduzida exclusivamente por leveduras indígenas, sem qualquer adição de insumos.
O líquido é então transferido para a prensa vertical de parafuso com estrutura de madeira, peça antiga compartilhada com outros pequenos produtores da região, onde a extração se faz de maneira suave e progressiva. Em nenhuma etapa do processo é utilizada bomba: os movimentos de líquido se dão sempre por gravidade. O élevage transcorre durante aproximadamente um ano em fûts velhos de carvalho - barricas já passadas por vários vinhos anteriores, escolhidas justamente para que o carvalho não imprima qualquer marca no vinho -, sob o presbytère, a antiga casa paroquial que serve de adega ao casal em Mavilly-Mandelot. O vinho é trasfegado uma única vez antes do engarrafamento, realizado também sem bomba e sem adição de sulfitos em nenhuma etapa, da colheita à garrafa.
Nota de Degustação
2024 é a nona safra do produtor e transmite uma segurança impressionante para um domaine tão jovem.
Domaine Dandelion é bastante particular. Foge da receita mais comum de vinhos FLUÍDOS de mínima intervenção. Nesta cuvée, encontramos o que os franceses chamam de matière. Cada gole preenche o palato com substância, profundidade e intenção. Os taninos, ligeiramente empoeirados, emolduram a textura com elegância, conferindo relevo, profundidade e uma sensação tátil que prolonga a experiência, muito além da fruta.
E por falar em fruta, este 2024 apresenta o morango silvestre típico do DNA do Dandelion, acompanhado por uma linda cereja. Em uma de nossas degustações, arrolhamos a garrafa e voltamos a bebê-lo um dia depois, um teste que comumente fazemos na Cave Léman. O resultado é um vinho praticamente intacto, sem perder energia, precisão e profundidade. Como bônus, surgiu uma groselha suculenta e irresistível.
Esta é nais uma safra bastante consistente do produtor, que nos faz lembrar os tempos áureos da 2017, responsável por colocar o Domaine Dandelion no radar dos bars à vins parisienses.
Por fim, não vamos falar a qual renomada apelação este 2024 nos remeteu, porque não nascemos ontem e sabemos o quão traiçoeiras comparações podem ser.
Harmonização
Com 11% de álcool, taninos levemente empoeirados e acidez precisa, o Hautes-Côtes Nature 2024 pede parceiros à mesa que respeitem sua delicadeza e ampliem sua dimensão salgada e especiada.
Sirva em taça borgonha de bojo largo, entre 13 °C e 15 °C - cerca de 20 minutos de geladeira antes de abrir a garrafa.
Um risoto de cogumelos selvagens conversa diretamente com frutadas do vinho. Coxa de pato confitada, com sua gordura equilibrada pela acidez viva, é combinação clássica do repertório borgonhês. Um frango caipira assado lentamente com ervas frescas e alho também funciona com elegância. Carnes de porco - um filé mignon suíno ao molho de frutas vermelhas ou uma costelinha braseada - espelham o caráter frutado do Pinot Noir sem o sobrecarregar. Na cozinha brasileira, um barreado paranaense, com sua carne cozida lentamente e gordura moderada, é sugestão certeira: a acidez do vinho corta a untuosidade do prato e a especiaria do cachos inteiros ecoa os temperos da receita.