Introdução
Na Côte des Bar, onde o calcário kimmeridgiano aflora sob os vinhedos de Polisot, a família Piollot cultiva há seis gerações um terroir que poucos conhecem a fundo. A parcela Les Protelles, plantada em 1976 com exposição plena ao sul, dá origem a um rosé de saignée feito inteiramente de Pinot Noir - uma tradição do vilarejo que, nas mãos de Roland Piollot e da nova geração da família, ganhou a precisão da viticultura biodinâmica.
O resultado é um champagne de parcela única, sem dosagem, que carrega no copo tudo que o solo e o tempo têm a dizer.
Descrição da safra
O ano de 2019 na Champagne, e em particular na Côte des Bar, foi marcado por uma sucessão de contratempos climáticos que resultaram, contra as expectativas, em uvas de qualidade notável.
A primavera trouxe geadas em abril e maio que afetaram cerca de 3% da área da denominação, seguidas de um surto de míldio em decorrência das chuvas de maio. O verão impôs duas ondas de calor consecutivas - a primeira no fim de junho e a segunda, mais intensa, em julho, quando a temperatura máxima registrada em Champagne alcançou 42,9 °C - causando escaldamento de cachos e reduzindo o rendimento potencial em mais de 10%.
A Côte des Bar, plantada majoritariamente com Pinot Noir, acusou de forma particular o déficit hídrico do verão. A colheita foi iniciada no início de setembro, exigindo triagem rigorosa. As uvas que passaram pela seleção chegaram à adega com maturação concentrada, acidez total elevada e boa riqueza aromática - qualidades que fontes da região atribuem às noites frescas de agosto e setembro, que preservaram o equilíbrio dos mostos.
O rendimento oficial fixado pelo Comitê Champagne foi de 10.200 kg/ha, abaixo do teto de 2018. Para o Pinot Noir da Côte des Bar, o potencial alcoólico medido logo no início da colheita já era particularmente elevado, antecipando a concentração que viria a caracterizar este millésime.
Vinificação e Élevage
A vinificação começa com uma maceração de saignée: as uvas de Pinot Noir ficam em contato com as cascas por três dias (cerca de 72 a 96 horas), tempo suficiente para extrair a cor intensa e a estrutura tânica característica da cuvée, sem apagar a frescura da fruta. A fermentação alcoólica é conduzida com leveduras indígenas, ativadas por meio de um pied de cuve preparado dias antes da vindima com suco dos próprios vinhedos do domaine - prática que o Champagne Piollot adota sistematicamente para depender exclusivamente da flora leveduriforme do terroir. Tanto a fermentação alcoólica quanto a maloláctica são realizadas integralmente em tanques de aço inoxidável, escolha que preserva a nitidez aromática do Pinot Noir e minimiza as interferências externas.
Após a fermentação, o vinho base permanece em cuve para o élevage, sem passagem por madeira. O conjunto segue então para o tirage e a tomada de espuma em garrafa - segunda fermentação pelo método champenoise -, permanecendo sur lattes por quatro anos, bem além do mínimo regulamentar de quinze meses exigido para os champagnes millésimés. Esse tempo prolongado sobre as borras de levedura contribui para a complexidade e a textura que distinguem a cuvée.
O dégorgement é realizado mês a mês, conforme o julgamento do produtor para cada lote individualmente, sem dosagem.
Nota de Degustação
Na taça, o Les Protelles 2019 apresenta um rosa intenso e saturado, com tendência clara ao magenta/roxo, com reflexos purpúreos, resultado direto da maceração de três dias que lhe confere uma densidade de cor incomum entre os champagnes. A borbulha é fina e persistente.
No nariz, para esta safra específica, abrem-se aromas de calcário úmido e flores secas herbáceas; com um pouco de tempo no copo, emergem morango, pétalas de rosa esmagadas e um toque discreto de tostado - caráter que o próprio produtor associa à cuvée no seu site.
Na boca, o ataque é redondo e generoso, com estrutura tânica presente mas bem integrada, que remete mais a um tinto frutado do que ao perfil convencional de um rosé efervescente. O corpo é médio, a acidez vivaz e o final limpo, com persistência de fruta vermelha e mineralidade calcária. Os quatro anos sur lattes acrescentam uma camada de complexidade sem apagar a frescura da fruta - equilíbrio que convida tanto ao consumo imediato quanto a uma guarda adicional de alguns anos.
Harmonização
Com acidez vivaz e fruta vermelha concentrada, o Les Protelles 2019 pede parceiros à mesa com personalidade: um tartar de carne bovina com mostarda e alcaparras, cuja gordura e pungência equilibram a tensão do vinho; magret de pato ou confit, cujas carnes escuras e saborosas conversam com o Pinot Noir de saignée; costeletas de cordeiro grelhadas, em que o frescor das bolhas limpa a untuosidade da carne; salmão grelhado ou truta salmonada, cujo teor lipídico ressalta a fruta do vinho sem sobrepô-la; e, na cozinha brasileira, um baião de dois com carne-seca desfiada, cuja salinidade e textura rústica encontram eco na mineralidade calcária do champagne.
O produtor indica sobremesas de chocolate amargo como combinação da cuvée. Sirva em taça de vinho branco com abertura moderada, a 9-10 °C.